19/06/2009

Rosa-dos-Ventos

Rosa-dos-Ventos
Composição: Chico Buarque

E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima para socorrer
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr
Mas sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão
E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão

Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
O leito do rio fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar
Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar


Quando eu tinha 9 anos, estava na 3ª série primária, estudava na Escola Classe Zoobotânica, minha professora era a D.Enedina. Nunca me esqueci dessa música que ela trouxe pra sala de aula pra gente ouvir. Ela interpretou junto com a gente todo o texto e ensinou a gente a cantar a música. Eu nunca me esqueci, como essa música falou comigo! Ela ficou por muitos dias em minha cabeça.

Enquanto crescia fui me apaixonando cada vez mais por textos, até fazer faculdade de Letras e começar a dar aulas. Imagina a minha alegria quando pequei este texto e passei para os meus alunos igual a professora Enedina me passou, com a mesma paixão.

Quando o Chico Buarque escreveu a letra dessa música, foi na época do governo militar. Um tempo de perseguições para quem não se dobrava diante da ditadura militar.

"E do amor gritou-se o escândalo"
Do amor que deveira haver pela vida, virou escândalo, pois quem não compactuava, estava debaixo de escândalo. Estava exposto ao perigo.

"Do medo criou-se o trágico"
O medo era real, porque a tragédia era eminente, a qualquer hora os militares podiam invadir a sua casa e prender alguém como subversivo. Muitos que foram levados assim dos seus lares nunca voltaram.

"No rosto pintou-se o pálido"
Palidez de medo, palidez cadavérica, palidez da morte. Pessoas desaparecidas, que nunca foram encontradas, nem mesmo o corpo para ser enterrado.

"E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima para socorrer"
Chorar sem ter certeza da morte, lastimar sem saber ao certo o que houve; e ter medo até de chorar.

"E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr "

E a gente se calou dentro das trevas, caminhando dentro das trevas, murmurando dentro das trevas, sussurrando, fando baixinho para não ser ouvido pela repressão política e não pagar o preço caro por falar demais. Muitos pagaram com a própria vida. Tiramos leite das pedras, fazendo com que elas clamassem nem que fosse baixinho. Cometemos o erro de deixar o tempo correr mais de 20 anos.


"Mas sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão"

Finalmente acordamos do sono dos séculos. diante do espetáculo, como uma chuva de pétalas, como se o céu vendo todas as penas, pelas quais passamos como povo oprimido, perseguido e reprimido por um governo que prendia, torturava e matava. Esse céu morreu de pena de nós e fez chover o perdão.


"E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão "

Os sábios eram aqueles conhecedores de tudo o que acontecia, que não calaram seus lábios e denunciaram todo o mal com muita paixão.

Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
Transbordando de toda esperança de mudança, de transformação. A calma do lago, que jazia adormecido, se enfureceu e a Rosa-dos-Ventos que se move ao sabor do vento, perdeu completamente a direção.

"O leito do rio fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar"
O rio ficou tão cheio, que inundou de água doce a amargura de muitas pessoas, transbordou contaminando mais e mais pessoas que se se juntaram nas ruas, clamando por transformação.

Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar

Numa enchente de fé, de esperança, de desejo de transformação, como uma cheia do Rio Amazonas que provoca uma explosão atlântica, com o fenômeno da pororoca; que a multidão via tudo em pânico, via tudo atônita.


Mesmo que tenha tardado o despertar desta multidão, que ficou adormecida por mais de 20 anos e todos os protestantes da época também adormecidos e calados com o argumento de que toda autoriade é constituída por DEUS e muitos foram mortos e massacrados.

A igreja Católica se manifestou na época através de alguns representantes dela; mas ninguém, ninguém da igreja prostestante se levantou, pelo menos aqui em Brasília, não; nem em todo o Distrito Federal.

Eu falo do que vi e vivi nessa cidade em que nasci na década de 60. Vi de perto toda a opressão das décadas de 70 e 80. Fiz parte das pessoas que foram as ruas para lutar por mudança.

Infelizmente não consigo compactuar com a injustiça. Depois de tudo o que passei, quando JESUS me encontrou e me ensinou na sua Palavra, aprendi que a igreja que está sendo apresentada não é a igreja que o Senhor JESUS quer.

O argumento de que toda autoridade é constituída por DEUS não é o suficiente para justificar as atrocidades praticadas pelo homem. Usar esta parte de um versículo bíblico transmite a idéia de que DEUS foi responsável pela Ditadura Militar que tomou conta do Brasil.


Este versículo responsabiliza então DEUS por cada atrocidade que está sendo cometida por pastores dentro da igreja protestante no Brasil.
Romanos
13 - 1 Obedeçam às autoridades, todos vocês. Pois nenhuma autoridade existe sem a permissão de Deus, e as que existem foram colocadas nos seus lugares por ele.

Eu creio que DEUS é bom, que ELE não vai levantar pessoas para roubarem o seu povo. Roubarem mais que seu bens materiais, roubarem sua fé e sua esperança, roubarem a salvação deles em Cristo JESUS.
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